quarta-feira, 13 de julho de 2011

A MANHÃ DO MUNDO – Pedro Guilherme-Moreira

Sinopse

No dia 12 de Setembro de 2001, Ayda encontrou-se com Teresa num café de Allentown e, com o jornal aberto sobre a mesa, foi implacável com os que tinham saltado das Torres Gémeas, chamando-lhes cobardes; mas não disse à amiga que, na verdade, o que sentia era outra coisa, uma grande frustração por o marido e o filho a terem abandonado e rumado a Nova Iorque num momento em que ela se recusava a tomar a medicação e lhes tornava a vida um Inferno - e de não ter coragem de fazer o que esses tinham feito.

Entre os que saltaram, estavam Thea, Millard, Mark, Alice e Solomon - todos personagens fascinantes, com histórias de vida simultaneamente banais e extraordinárias -, que o acaso reuniu no 106.º piso da Torre Norte do World Trade Center naquela fatídica manhã. Se Ayda, por hipótese, conhecesse essas histórias e o drama que eles enfrentaram, decerto não os teria insultado tão levianamente. Mas poderá o destino dar-lhe uma oportunidade de rever a História?

Este é um romance admirável sobre o medo e a coragem, o desespero e a lucidez, a culpa e a expiação; mas é também um livro sobre Einstein e os universos paralelos, sobre o que foi e o que podia não ter sido. No décimo aniversário do 11 de Setembro, a memória não basta, é preciso combater o esquecimento indo para junto dos heróis que viveram o horror e compreender cada um dos seus actos - se necessário, saltar com eles, conhecer aquela que foi a manhã do Mundo.

Opinião

Não me canso de referir que, de cada vez que leio uma obra de um autor nacional, fico cada vez mais impressionada. Esta não foi excepção: estou encantada com esta estreia de Pedro Guilherme-Moreira.

Foi um livro que me despertou desde o inicio muita curiosidade. Por isso, registei-o na minha lista de desejos. Mas a brilhante opinião do blog PlanetaMarcia, destacou-o dos demais e acabei por ficar com uma vontade incontrolável de o adquirir.

Por incrível que pareça, adquiri-o de uma forma muito caricata. Numa das minhas idas à feira das velharias, deparei-me com um exemplar e não pensei duas vezes. Até começar esta leitura, fui perseguida por ele. Tudo o que via na internet tinha directa ou indirectamente a ver com ele. Portanto, tinha mesmo de o ler. Será mágico??

Se é mágico ou não, não sei, mas de uma coisa tenho a certeza: tal como as personagens desta obra, também ele teve direito a uma segunda oportunidade e fico muito feliz que tenha sido eu a escolhida para ditar o seu destino.

Pedro Guilherme-Moreira, apresenta-nos “uma obra de ficção apoiada numa base factual e verdadeira.” Uma autêntica obra de arte, cuja essência se baseia na conjugação da Teoria de Einstein com a fatídica manhã do 11 de Setembro, aquela manhã onde “o mundo assistia incrédulo a um dos piores atentados da sua história”, transmitindo de uma forma brilhante e quase palpável todos os sentimentos e emoções que envolveram este acontecimento marcante.

Sei que alguns, só por causa de este livro abordar o tema do 11 de Setembro, nem se atreveram a dar o beneficio da dúvida. Tenho muita pena que assim seja, pois:

“Ainda hoje meio mundo tenta esconder de outro meio essas centenas de heróis que merecem que a sua história e o sentido dos seus actos sejam contados e objecto de reflexão.”, e o autor Pedro fez desta narrativa uma homenagem mais do que merecida a estes heróis. A todos aqueles que se encontravam dentro do World Trade Center, como também a todos aqueles que a ele se dirigiam no intuito de os salvar. Senti esta profunda homenagem, sobretudo perante todos os que decidiram por fim às suas vidas, saltando das torres. Para mim, que assisti a toda esta tragédia através da televisão e na internet, não passava de uma imagem. Após ter lido esta obra, dei por mim a rever as mesmas fotografias com outros olhos: faltava-me o sentimento, e foi no decorrer desta narrativa que o encontrei…

“Tudo soa a fábula, trilho fantástico de palavras para compor uma declaração de seres superiores soprada ao ouvido dos lamentáveis cépticos. Os que duvidam de que os saltos são feitos de coragem. Os que estão certos de que saltar é desistir. Os que duvidam de que abandonar pode ser um acto nobre. Os que estão certos de que escolher morrer é desrespeitar quem fica.”

A morte…Não é fácil tocar neste tema, mas ele existe. Como existem muitos leitores que preferem outros livros, talvez porque “O homem olha sempre a morte dos outros com receio da sua.”

Quando falamos no 11 de Setembro então, não existe forma de contornar a questão encararmos esta realidade tão dura. Mas Pedro Guilherme-Moreira dá uma perspectiva bem diferente desta realidade: a segunda oportunidade.

“São os mesmos da primeira oportunidade e, contudo, nesta segunda, algo os inscreve de forma distinta nos favos da colmeia humana. (…)Somos gente e, por sermos gente, somos por natureza contraditórios. Se nos ensinaram que o carácter residente não se eclipsa, como podem os heróis de um momento ser os cobardes do seguinte? (…)Nenhum deles tinha tido essa atitude na primeira oportunidade. Vamos ao fundo de nós. A história regista heróis como foram construídos pelo povo. Somos o que somos, ou somos a circunstancia de nós próprios? Somos o que não somos ou somos a circunstancia dos outros?”

Sem dúvida um toque de mestria, que marcou profundamente esta narrativa. É fenomenal poder acompanhar as personagens nestas duas partes distintas. Fica-se com uma noção perfeita das relações humanas existentes e o impacto que elas têm sobre esta história. Fantástico…

De forma mais técnica, o livro está muito bem organizado, escrito de uma forma muito simples, genuína e sentida. Cheguei mesmo a arrepiar-me.

Não posso deixar de focar um toque genial, e ao mesmo tempo subtil, deste autor. Esta história contém muitas personagens. No entanto, soube sempre exactamente quem eram, porque, de uma forma muito graciosa, este autor foi sempre enquadrando cada uma na história.

Desde que comecei com o projecto do Prazer da Leitura, não me lembro de ter tido tanta dificuldade em escrever uma opinião. É difícil exprimir sentimentos…

“Às nove horas em ponto desse dia, ninguém em Nova Iorque sabia que o mundo nunca mais voltaria a ser o mesmo.”



Espaço do Livro

http://amanhadomundo.blogspot.com/

Sobre o autor

Nascido no Porto no Verão de 1969, chegou com 7 anos às mãos da professora Laura sem saber fazer contas de dividir; ela ensinou-o e ele pagou-lhe com uma fábula. Aos 11, entre rapazes de 16 e 17, empatou o primeiro lugar dos jogos florais da escola com um rapaz de 12, hoje um conhecido político. Aos 13, perdeu para o mesmo menino, mas levou o 2.º e o 3.º prémios. Aos 16, ganhou (finalmente sozinho), porque o menino político entrou na Universidade. No ano seguinte entrou ele, na de Coimbra, e andou com Torga no trólei 3, mas nunca se falaram. Profissionalmente, foi dos primeiros advogados a ganhar o Prémio Lopes Cardoso, com um artigo publicado, primeiro, na prestigiada Revista da Ordem dos Advogados e, depois, em livro. Aos 25, decidiu publicar apenas aos 40, porque queria saber, e escrever, mais. A Manhã do Mundo aparece a meio do seu «dia», sendo o primeiro romance que publica.

Espaços do Autor

http://ignorancia.blogspot.com/

http://www.facebook.com/pguilhermemoreira

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